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A música infinita

Por Edimilson de Almeida Pereira

15 de junho de 2022
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Cida Pedrosa (Maria Aparecida Pedrosa Bezerra) nasceu em Bodocó, no sertão do Araripe pernambucano, em 1963. Poeta, advogada e filiada ao PCdoB, em 2020 elegeu-se vereadora à Câmara Municipal do Recife. Publicou os livros Restos do fim (Edição independente, 1982); O cavaleiro da epifania (Edição independente, 1986); Cântaro (Edição da autora, 2000); Gume (Edição da autora, 2005); As filhas de Lilith (Calibán, 2009); Miúdos (Interpoética, 2011); Claranã (Confraria do Vento, 2015); As filhas de Lilith (2. ed., Edições Claranan, 2017); Gris (Cepe, 2018); Solo para vialejo (Cepe, 2019 – vencedor do Prêmio Jabuti 2020 nas categorias Livro do Ano e Livro de Poesia); e Estesia (Edições Claranan, 2020).

Solo para vialejo nomeia de maneira subliminar suas referências estéticas e, de maneira explícita, algumas das questões sociais mais pungentes do país. No primeiro caso, tem-se uma obra-mosaico que exibe, entre outras referências formais, elementos do modernismo de 1922, da poesia concreta, do poema-práxis e da poesia marginal. Esse reencontro de aspectos das vanguardas (tal como o experimentalismo formal) com temas da vida cotidiana (a exemplo da linguagem coloquial) torna visível um panorama da sociedade brasileira sustentado por um rigoroso trabalho estético. Do passado ao presente, o livro se debruça sobre temas como a colonização, o vigor da natureza, o pluralismo cultural do Nordeste e do Brasil, a violência no campo e na cidade, o exílio, a luta antirracista, a imigração forçada, as relações entre fatos históricos e vida pessoal etc.

Se pensarmos como algo extraordinário o fato de certos poemas condensarem as contradições e as possibilidades da máquina do mundo, imagine-se o impacto de um livro como Solo para vialejo, articulado como um longo poema cujos fragmentos funcionam tanto de modo independente quanto de modo contínuo. Se cada poema é fruto de camadas de estrutura e de significado, o poema-livro de Cida Pedrosa é, em sua gênese, o resultado de uma contínua explosão desses aspectos. Ou, ainda, se constitui como uma arborescência de estruturas e significados cujas origens se apoiam em raízes que se espraiam em várias direções.

Em função disso, tem-se no livro um jogo poético que tanto frisa certas fronteiras de identidade (como aquelas representadas pelas práticas das culturas populares, geradas pelo contato entre populações negras e indígenas) quanto dilui os sulcos profundos dessas mesmas fronteiras (condição fundamental para que do jugo colonialista possa emergir uma lógica cultural específica, cujos sentidos decorrem de suas alianças e contradições). Isso explica, por exemplo, que o reconhecimento das culturas locais (“tupys tupys tupys tupys tupys tupys tupys tupys”) não inviabilize o diálogo com realidades culturais externas (“bem longe dali em um outro lugar das américas em uma outra encruzilhada um artista encontrou a virtuose nas cordas do violão afinado pelo diabo”). Para tecer no texto alguns desses aspectos, a poeta lança mão de vários recursos estilísticos. Por exemplo: o poema de abertura (no qual se observa a tensão entre a economia formal e o transbordamento decorrente dos temas sociais invocados) explicita o uso da técnica verbivocovisual empregada no concretismo:

parto em busca de ti

negro ser
negro ser
negro ser

parto em busca de mim

o som
o som
o som

trago o algodão na alma

o sol
o sol
o sol

tirar da flor a seda branca

: pesa
pesa
pesa

flor árida
flor árida
flor árida

o fardo da minha infância

Aqui, Cida Pedrosa também se vale da notação memorialística, que registra embates dramáticos ainda não solucionados pela sociedade brasileira, como a violência colonial e a exploração dos menos favorecidos: “antes de os homens brancos chegarem com suas naus nauseabundas e nulas a terra era vasta e nós vivíamos livres”.// “: a mulher virou homem o trabalho/ e a desigualdade por baixo da saia”. 

Simultaneamente a esse discurso que ressalta traços de uma coletividade latino-americana, a poeta aborda experiências de pessoas relacionadas às camadas populares: indígenas, negros e ciganos; “um poeta agricultor”; homens e mulheres trabalhadores deixam o anonimato por meio da investigação histórica e da expressão poética, que se entrecruzam no livro. Sob essa percepção, a vida da poeta interage nessa série de narrativas: “em noites de renovação enquanto os adultos se ajoelhavam diante do santo entronado eu enchia os bolsos do vestido cor-de-rosa com sequilhos escolhidos a dedo”.

A interação estética entre o discurso poético e as práticas das culturas populares, indígenas e afrodiaspóricas tem permeado diversos livros da poesia brasileira contemporânea: Roça barroca (2018), de Josely Vianna-Baptista; Fia (2016), de Jussara Salazar; Noite de São João (2020), de Natália Agra; e Casa do Norte (2020), de Rodrigo Lobo Damasceno, que assim como Solo para vialejo recuperam e aprofundam a abordagem de temas complexos como as relações entre o local e o global, o nacional e o transnacional, o pensamento da natureza e o pensamento humano. Atentos às fronteiras culturais e à perspectiva de ultrapassá-las, essas obras esgarçam, sem pretender explicar, o desejo de sabermos o que somos a partir dos lugares que habitamos. Não por acaso, Cida Pedrosa se apoia nas blue notes (as notas rebeldes e imprevisíveis do blues, que traduzem sensações e experiências fora dos padrões da música dominante) para mapear mundos que a lógica violenta do colonialismo não descortinou. Apesar da fadiga e da morte, a poeta e os viventes do poema-livro se arriscam em busca da música infinita, aquela que nos mobiliza para o diálogo porque articuladas por múltiplas vozes.

© Prisca Agustoni

Edimilson de Almeida Pereira é poeta e professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou Entre Orfe(x)u e Exunouveau: análise de uma epistemologia de base afrodiaspórica na literatura brasileira (2017) e Poesia + antologia (2019). Sua obra de ficção inclui O ausente, Um corpo à deriva e Front – publicações de 2020.

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