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De tecer e destecer faz-se o tecido

Por Edimilson de Almeida Pereira

19 de dezembro de 2021
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A poeta, artista visual e tradutora Jussara Salazar nasceu em Pernambuco e reside atualmente em Curitiba. Sua obra inclui os livros Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá: poemas de Leticia Volpi (2002), Natália (2004), Coraurissonoros (2008), Carpideiras (2011), O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas (2014), Corpo de peixe em arabesco (2019) e O dia em que fui Santa Joana dos Matadouros (2020). Em 2016, a autora publicou Fia, livro no qual a economia dos textos (25 poemas na primeira parte, “Cantigas de passagem”, e 14 na segunda, “De riscos e mapas”) contrasta com uma densa teia de relações estéticas, históricas e sociais. Os índices desse contraste estão na abertura do livro, onde se enuncia o diálogo entre texto e imagem (devido à presença de uma foto de tema sacro realizada por João Urban), entre conceito e forma (em função da epígrafe neobarroca de José Lezama Lima: “Cada minucia un sacramento,/ como una ofrenda al peso de la noche”).

Tecido por Jussara Salazar com os fios da razão e da emoção, Fia evoca aspectos do Cancioneiro medieval (cantares de amigo), dos autos pastoris de Gil Vicente e, pela imprevisibilidade das imagens, o Romanceiro gitano de Garcia Lorca. Por esse viés, a poeta reencena ritos populares que ocultam sentidos complexos sob uma aparente simplicidade, tal como nas sequências místico-amorosas (“Sem rumor tu passas / menino/ entre coroas de flores desbotadas / na curva ligeira da estrada”) e nas proposições em que um elemento concreto nos desafia à decifração de um conceito (“frutas podres” > desesperança; “cera de vela” > passagem da vida).

A presença do sagrado de feição medieval, reinterpretado no meio rural brasileiro, é uma das linhas de força do livro. Em decorrência disso, a tensão entre o ascetismo dos entes exemplares (em sua maioria entidades femininas como “santa rosa de todos os dias”, “virgem dos carretéis gongóricos”, “nossa senhora dos fios” etc.) e a pulsão erótica dos seres humanos resulta num fluxo de imagens que acentua o caráter dialógico de Fia. Por exemplo, em sequências como “legiões de pássaros negros desfiam o ar”, “peixes brancos/ folhas longas” e “sangra o algodão branco”, pode-se entrever a atmosfera das pinturas de Van Gogh e a constelação de metáforas de Eustáquio Gorgone de Oliveira, poeta nascido em Caxambu, no sul de Minas Gerais, em abril de 1949, e falecido em março de 2012, em São Paulo, capital.

Outro fio a ser puxado pelos leitores de Fia é, certamente, o da metalinguagem. Jussara Salazar estende esse fio para analisar as experiências do sujeito, além de aludir aos modos de elaboração do poema (“Fia esta cantiga”). Assim, a vida e a escrita se entrelaçam por serem um contínuo fazer-desfazer-refazer como indicam as sequências: “Fia esta cantiga/ desfia depois/ tecer e trançar” e “Tece: tua lavoura de pontos/ desde o vazio faz-se/ rede no tempo”. Esse jogo de formas linguísticas associa-se a uma perspectiva analítica por meio da qual a poeta expõe as contradições de uma fração do mundo regida pela lógica do sacrifício que leva à beleza, da proteção familiar que deriva para a opressão, da fé que restringe a autocrítica. Nesse ambiente, a poeta lança um olhar para situação específica das mulheres. Louvadas e/ou desprezadas, as mulheres resumem em si várias tensões sociais do passado e do presente. No que se refere ao trabalho, encontram nele tanto a liberdade quanto a clausura, já que, entre os seus dedos, os fios do algodão se revelam como “fios/ de outro brilho/ que as filhas da terra enlaçam/ em cardumes de mãos/ nas tardes perdidas/ e noites escuras”.

Jussara Salazar é uma conhecedora da dialética que anima as culturas populares. Dessa seara, extraiu livros como Carpideiras e Fia. Em ambos, a poeta demonstra que os temas abordados se referem a uma compreensão profunda do sujeito e do seu estar-no-mundo. Temas como a seca, a paisagem, o canto, a solidão, as mitopoéticas indígenas, as vivências do sagrado, o pastoreio, a agricultura, o bordado, a costura desencadeiam no leitor perguntas que mobilizam o ser humano em qualquer tempo e em qualquer lugar: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? A vida termina com a morte? A depender do livro Fia, as respostas virão como o enigma de certos fios que não são vistos, mas conferem forma e sentido ao que foi tecido.

© Prisca Agustoni

Edimilson de Almeida Pereira é poeta e professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou Entre Orfe(x)u e Exunouveau: análise de uma epistemologia de base afrodiaspórica na literatura brasileira (2017) e Poesia + antologia (2019). Sua obra de ficção inclui O ausente, Um corpo à deriva e Front – publicações de 2020.

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