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O que se vê ainda não é o poema

Por Edimilson de Almeida Pereira

17 de abril de 2022
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Simone Andrade Neves nasceu em 1974, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Publicou os livros de poesia O coração como engrenagem em 1994, edição da Autora; Corpos em marcha, em 2015, no Brasil pela editora Scriptum e, na Itália, em 2020, pelas Edizioni Kolibris; Missa do envio – Bandeira do Divino, em parceria com o músico Chiquinho de Assis, pela editora Casa Impressor de Almeria, em 2017, e Terrário, pelo Selo Demônio Negro, em 2020.

Terrário é um recipiente onde são reproduzidas as condições ambientais necessárias para o desenvolvimento de seres vivos terrestres. As dimensões e os materiais de que é feito são variáveis: de vidro, de rede metálica, de acrílico ou de madeira, ele é resultado de uma ação humana, que estabelece as suas funções. O quarto livro de Simone Andrade Neves pode ser interpretado, metaforicamente, como um terrário de linguagem preparado para abrigar as ideias, as palavras e o mundo reorganizado pela poeta. Nesse livro, habitado por 28 poemas e suas variadas interpretações, sobressaem a construção de uma paisagem sensorial derivada de áreas pouco afetadas pela urbanização e a explicitação da escrita como um exercício do pensamento. Simone Neves propicia às ideias e aos seres criados pela palavra condições favoráveis para que se desenvolvam diante do olhar-radar da poeta e dos leitores.

Nesse ambiente, restrito e amplo ao mesmo tempo, é possível analisar os atos humanos e as dádivas da natureza no intuito de compreender as conexões e as rupturas inerentes às relações do sujeito com os seus semelhantes e dessemelhantes. A poeta celebra – pela fina lente da desconfiança – os acontecimentos a seu redor. Assim, na beleza dos dias em que uma mulher passeia com “seus lábios untos” e seus “olhos de amêndoa” (“Cantiga de alpendre”) subjazem o receio e o medo como patrimônio pessoal e coletivo. “Haverá guerra?”, pergunta-se a poeta, dando a entender que algo se esconde para além da objetividade do que é vivido.

Na série de micropoemas intitulada “Adro”, o olhar desde a janela atribui às cenas observadas sentidos que, em tese, não confirmam a solidez da realidade. Como adverte a poeta, “Janela não suspende julgamento/ um olho fora, outro dentro”. O que o leitor tem diante de si é mediado pelo ambiente construído no terrário da linguagem. Desse modo, as relações íntimas da poeta com o seu lugar, transfiguradas em tentativa de compreensão do que é o estar-no-mundo, podem ser compartilhadas por outros sujeitos, independentemente da latitude em que estiverem. No poema “Depois de sonhar com Paul Klee”, Simone Neves evidencia esse processo de interação. Na medida em que descreve a paisagem do seu lugar, com o “pessegueiro de frutos brancos”, remete o leitor para a discussão das relações entre cor e forma que conferem sentido universal tanto a uma pintura de Klee quanto à pintura-em-palavras do “um bananal com três cachos” feita pela poeta.

Nos poemas de Terrário é possível sentir “as raízes espessas” do cedro (“Sobre raízes”), “o tom da terra” (“Oco”), “os pés no rio” (“Das velhas tribos”) e outras referências concretas. Porém, entre o fato observado e o poema insinuam-se nuances de percepção que alteram o modo como vemos o mundo, tal como ocorre na surpreendente imagem de “um gato/ no fundo do olho do pássaro” (“Alma de gato”). Esse apelo sensorial aponta para uma poética que – para além das coisas locais e dos hábitos diários – escava as câmeras do mistério e a suposta segurança de uma “casa inconsumível” (“Cidadela”).

A poeta mergulha nas cenas de pequenas cidades e ambientes rurais tensionados por heranças políticas, econômicas e culturais conservadoras e por articulações culturais populares que exprimem, a um só tempo, discordâncias e concordâncias com essas heranças. Esse cenário, guardadas as devidas diferenças de representação, segundo aspectos locais, fundamenta alguns dos mais conhecidos poemas de Ascenso Ferreira e Jussara Salazar, no Nordeste, e Cora Coralina e Manoel de Barros, no Centro-Oeste do país. No que concerne a Minas, Simone Andrade Neves perscruta o universo lírico-barroco descortinado por olhares como os de Carlos Drummond de Andrade, Dantas Mota, Adélia Prado e Eustáquio Gorgone de Oliveira. Desde a sua janela, a poeta de Corpos em marcha sobrepõe outras camadas de linguagem e de sentido à lírica brasileira contemporânea e, de modo particular, àquela forma que conhecemos como poesia do cotidiano.

© Prisca Agustoni

Edimilson de Almeida Pereira é poeta e professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou Entre Orfe(x)u e Exunouveau: análise de uma epistemologia de base afrodiaspórica na literatura brasileira (2017) e Poesia + antologia (2019). Sua obra de ficção inclui O ausente, Um corpo à deriva e Front – publicações de 2020.

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