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Os olhos não veem aquilo que veem

Por Edimilson de Almeida Pereira

17 de julho de 2022
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Lucas Litrento nasceu em Maceió, em 1997. É escritor, cineasta, produtor cultural e integrante dos coletivos Mirante Cineclube e Pernoite. Estreou em 2019 com o livro de poemas Os meninos iam pretos porque iam, publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. É autor de TXOW, obra vencedora da primeira edição do Prêmio Delfos de Literatura/2019 organizada pela PUCRS Cultura. No mesmo ano, TXOW venceu o Prêmio Malê de Literatura, no Rio de Janeiro. Em 2020 o autor lançou o zine de poesia Robyn, além de ter assinado o roteiro e a direção do curta-metragem Samuel foi trabalhar.

A leitura de Os meninos iam pretos porque iam nos coloca diante da relação entre poesia e história num contexto em que a primeira – dadas as condições de apagamento de determinadas vozes na sociedade – se encarrega de suprir as lacunas da segunda, como indica o poema “curva da bala”: “escrevo o agora antes que a bala me atinja no pouco tempo que me resta cabe um romance”. Nesse caso, o que é história silenciada se revela como poesia de interesse civil, que nos informa acerca de algum fato intencionalmente subestimado. Na abertura do livro, o poema “morte de tarzan” explica certos acontecimentos aos quais se nega o sentido de fato histórico. Sem a compreensão desse aspecto, muitos se sentem isentos de responsabilidade e não denunciam a violência e as desigualdades sociais. Diante dessa recusa, o poema extrai da memória as graves questões histórico-sociais que não podem ser ignoradas: “homem branco nunca será rei da selva/ nunca será/ Leopoldo matou dez milhões/ Guilherme Segundo matou/ os herero e os nama”.

Esse poema lança luz sobre a senda do colonialismo e do racismo que, no passado como no presente, solapa as populações negras a ponto de impor a sucessivas gerações o estigma “das cicatrizes” nas costas e na consciência. Esse aspecto, visível em todo o livro, interage, em termos gerais, com as poéticas do engajamento social em suas diferentes perspectivas de gênero, classe social e pertencimento étnico. Nessas poéticas falam aquele(a)s que foram impedido(a)s de falar; através delas são reinventado(a)s como sujeitos aquele(a)s que foram atirado(a)s numa “gaiola cheia de pretos/ navio mar negreiro” (“morte de tarzan”).

Além dessa perspectiva, há no livro uma chave crítico-criativa que uma vez girada nos desloca para outras paisagens temáticas e formais. Quando afirma “os poetas primeiros já sabiam/ não vale a pena cantar o mundo” (“canto ix”), Lucas Litrento não recusa a relação entre poesia e história, mas desvela um território em que a poesia se nutre dos recursos da não realidade. Ou seja, o poeta subverte a lógica de que a poesia tem uma função imediata para demonstrar, assumindo os riscos de imprecisão da linguagem, que o poema é um todo e qualquer objeto, uma toda e inesperada caixa de ressonâncias: “porque o mundo não cabe/ num sample de samba-rock” (“canto ix”).

A chave girada pelo poeta consiste no gesto de samplear referências culturais com o intuito de alterar nossa percepção do mundo. Desse modo, Litrento explicita o relativismo subjacente àquilo que aceitamos – muitas vezes de forma acrítica – como fundamentos civilizatórios ou exemplos de uma realidade cultural dominante. Mais do que monumentos absolutos, as práticas culturais, uma vez desmontadas e remontadas, nos estimulam a ver um mundo em contínua recomposição. A partir do poema-sampler os fatos e as mitologias são reconfigurados revelando, por exemplo, um “ulisses pichador” que “ecoa seus nomes pela cidade”. O poema alerta que o inesperado é a outra face daquilo que pretensamente conhecemos; sendo assim, cada lugar guarda em si o gérmen de outros lugares, embora tenha suas próprias insígnias. Mesmo por negação uma cidade é outra, como se lê em “arrasa-urbe”: “maceió tem mais água que ítaca/ mais lanças que ítaca/ mais mortos que ítaca”.

Em Os meninos iam pretos porque iam a conexão entre referências clássicas e afrodiaspóricas resulta em poemas de alta voltagem imagética, a exemplo de “penélopes e circes” (“finjo que sou seu/ cão raivoso, argos/ leal à própria sombra/ de homem raivoso”) e “melaço” (“primeiro a mulher preta/ e depois os monumentos, o mármore/ e as curvas de pedra./ depois o desejo/ porque a beleza vem antes”). Além disso, uma atmosfera onírica permite ao poeta rastrear, entre luz e sombra, sensações e gestos intangíveis, como na suíte jazzística “bboy” (“o bboy não se contorce/ torce as costas/ a cintura já é outra coisa/ transforma o ar num corpo sólido/ e beija cada coxa feita de vento/ dentro da boca feita de vento”).

Do muito que se pode dizer sobre Os meninos iam pretos porque iam há dois aspectos que precisam ser mencionados: o primeiro diz respeito ao tensionamento entre elementos históricos, literários e musicais que fazem o livro ecoar na cabeça do(a) leitor(a) que estiver propenso(a) a vivenciar sensações não inscritas nos arquivos da lírica ocidental. O segundo aspecto expõe uma alquimia lírica renovadora, na qual fluências surrealistas e afrodiaspóricas desenham um território ainda pouco percorrido na poesia brasileira. Esses traços nos dão a certeza de que aquilo que a leitura inicial do livro nos oferece é um indício de ações e pensamentos complexos que estão à espera para serem desvendados. 

© Prisca Agustoni

Edimilson de Almeida Pereira é poeta e professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou Entre Orfe(x)u e Exunouveau: análise de uma epistemologia de base afrodiaspórica na literatura brasileira (2017) e Poesia + antologia (2019). Sua obra de ficção inclui O ausente, Um corpo à deriva e Front – publicações de 2020.

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