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Bichos e plantas, recatos e malícias

Por Heloisa Jahn

13 de março de 2022
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“Comuns”, palavra perfeitamente ambígua. “Perfeitamente” porque introduz o clima do livro inteiro já no título: Pequena enciclopédia de seres comuns. Em vez de especificar, a palavra relativiza: “comuns” como? E está dado o tom da leitura: a cada página, o ser apresentado e descrito estabelecerá um entendimento apoiado na descoberta – não na constatação. Mesmo que ele viva (o bicho) ou cresça (a planta) no seu quintal.

Os seres desse livro são comuns porque não têm nada de extraordinário: são seres vivos, como nós.

Os seres desse livro são comuns porque comuns a todos nós, ou seja, configuram a matéria da vida.

São bichos e plantas do ar, da água e da terra; 18 marias, 16 joões, 16 viúvas e viuvinhas e 26 híbridos. Juntos, classificados e em ordem alfabética, compõem um bestiário/álbum botânico que provoca ao mesmo tempo surpresa e uma espécie de alegria leve e continuada. Ou seja, estabelece no leitor o estado de poesia.

A chave para a sensação de maravilha é, primeiro, a construção do texto em parágrafos sóbrios, descritivos, cujo equilíbrio é aqui e ali balançado por termos imprecisos, que desmentem a assepsia da descrição ao carregá-la de afeto. Por exemplo: a maria-barulhenta tem olhos de canela. Seus ninhos quase caem quando venta muito. Porém não deixamos de saber que ela sempre põe dois ovos esbranquiçados, com pequenos pontos lilases.

A composição é hábil, sensível, apoiada na arte de incluir/excluir informações, como no cuidado de ratificar a realidade dos seres elencados com a inserção de seus nomes científicos. (No caso das aves, sugiro ouvir seus cantos na internet.)

Essa dicção particular, em dois registros, responde pelo prazer da leitura: viaja-se ao mesmo tempo bem alto e ao rés do chão. É como estar, com boa disposição e conforto, observando e ouvindo a natureza num tempo suspenso – um pouco como flanar ou meditar. É interessante observar que, na matemática dos apontamentos da autora, ciência + poesia = poesia. Mesmo a nomenclatura científica se transforma em língua mágica.

A leitura da Enciclopédia ganha em ser lenta e repetida. Cada texto é uma unidade, um poema: o ritmo, a prosódia, a economia estética de cada joão ou viuvinha-borboleta prescindem de continuidade. Ao contrário: a conexão com o leitor decorre da surpresa estética, não de uma linha narrativa que o impulsione. São os “insetos distraídos”, de “voo acrobático”, às vezes com “sobrancelhas explícitas”, que encantam a imaginação.

Outro recurso importante da escrita é o ritmo dos textos, que se abrem com a feição de percurso natural, sereno, para logo receberem uma aceleradinha que conduz à coda modernista, que dá uma cambalhota na natureza e deixa o bicho ou a planta sozinhos no universo: fora da ordem natural. Desde o início, a pista para o desenlace são os adjetivos deslocados, maliciosos, como nesta amostra, apresentando o morcego beija-flor:

“É uma graça de morcego. Pequenino, tem focinho comprido e uma língua extensível, com a qual suga o néctar das flores em noites úmidas. Disputa com os beija-flores os bebedouros, mas mesmo assim não é tido por eles como um desafeto. De orelhas pontudas e asas pardas, tem cara de rato. Embora seja noturno, não gosta de sangue, nem considera Nosferatu um aliado. Muito pelo contrário, é mais afeito aos insetos, como as abelhas, a quem ajuda a espalhar o pólen entre as plantas dos canteiros. É cego, mas tem um sexto sentido orientado por ecos.”

Livro bom de ler em voz alta, provoca gargalhadas soltas nas crianças.

Claro, um bestiário/álbum botânico sem ilustrações não tem graça. Aqui, os desenhos de Julia Panadés acompanham em sintonia a taxonomia de Maria Esther Maciel: são precisos e falsos ao mesmo tempo. Seu humor e sua graça estão na forma como representam, contendo todo comentário – e é justamente a contenção que define seu espírito.

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P.S. para estender um pouquinho a viagem da leitura da Pequena encicolopédia: em História de uma viagem à terra do Brasil, escrito por Jean de Léry em 1576 e publicado pela primeira vez no país em 1887, lemos: “De repente, a trinta passos de distância, à direita, vimos na encosta da montanha um enorme lagarto maior do que um homem e com um comprimento de seis a sete pés. Parecia revestido de escamas esbranquiçadas, ásperas e escabrosas como cascas de ostras…” (Tradução de Sérgio Milliet, 1951. Agradeço este P.S. a um comentário de Neca Jahn).

© Bel Pedrosa

Heloisa Jahn é editora e tradutora literária. Trabalhou na Brasiliense, na Companhia das Letras e na Cosac Naify. Editou cerca de 80 autores brasileiros, sobretudo ficcionistas e poetas, e traduziu cerca de cem títulos para todas as idades.

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