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O desalento de Tonico, sineiro

Por Heloisa Jahn

10 de abril de 2022
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Buriti Pequeno. É quase sempre nesse lugarejo do Planalto Central que se passam as histórias contadas nos doze contos de Erva brava. Tudo vasto e pequeno. Aves e plantas. Cidadezinha com sua igreja e seu sino, sua praça e seu coreto, extensos campos de soja, silos para armazenar os grãos, um matadouro de porcos. Casas pobres, um rio, alguma caverna. E espectros – vivos e idos.

Os moradores plantam hortas modestas – abóbora, mandioca, milho, feijão –, criam uns poucos bichos. O suficiente para se alimentarem, e à prole. Não precisam comprar quase nada. A cidade grande é Goiânia; a metrópole, Brasília – lugares distantes, quase remotos. Paisagem de cerrado, algumas serras, rios. Gente simples, que raramente pensa em sair dali, para estudar e trabalhar na cidade grande, por exemplo.

Atados à terra, Chico, Rita, Tonico, Zezinho, Bragança às vezes sonham com a vida em outra dimensão – se tivessem uma moto, se houvesse pombos na praça, se o sino tocasse como antes… Parecem aprisionados num tempo diferente, lento. É uma gente de pouca fala e pele rija, que trabalha muito porque o dia a dia resulta de um esforço incessante, na rotina de poucas variações. O que povoa essas cabeças? Nenhum projeto. No máximo, de vez em quando, imagens de coisas boas, talvez perdidas – um lençol limpo seco ao sol, um prato cheio. 

O povo de Buriti Pequeno divide entre si os primeiros ofícios, os necessários para que aquele conjunto de humanos se mantenha e se reproduza: a benzedeira, a curiosa que acompanha as parturientes e acolhe como é devido os que chegam a este mundo (um “exército raquítico”), o roceiro que planta um pouco de tudo… É verdade que alguns ofícios acabam: o sineiro sem aprendiz já não consegue escalar a torre, velho e inútil como os sinos. “Difícil entender como as coisas deixam de ser importantes assim, sem explicação.” É que a nova ordem, que submerge a antiga, atende à lógica da produção, e não mais à da vida dos moradores. Pede funcionários: na fazenda de soja, no matadouro, empregadinhos comandados por capatazes precisam apenas obedecer, e quem sabe economizar para um dia comprar a motinho, um sofá, uma tevê.

Nesse mundo no limite, os sentimentos delicados existem sem esperança – do amor canhestro de Everson e Rosa à melancolia do velho Tonico. Nele, as mulheres, quase sempre sozinhas, vão à frente, em geral com uma lucidez que falta aos homens. Maria do Lourival guarda uma terrível história secreta… Bragança pode ser ridicularizada, mas não desiste do plano cândido de dar nova vida à praça… Dita, benzedeira, Irene de faca na mão, a parteira que enfia rebeldia na cabeça das mulheres, Rita com a filharada: todas sabem o que é preciso fazer, e lidam com o mundo de um jeito especial porque conhecem seu funcionamento com o corpo. 

Ao mesmo tempo que as pessoas lutam para sobreviver, lidando com meios quase inexistentes, e paralelamente ao declínio da vida da cidade, outra ordem é transtornada. Assim como a cidadezinha e as pequenas roças são engolidas pelas fazendas que se avolumam e promovem queimadas para transformar a terra num deserto verde, a natureza também se altera e pouco a pouco prepara uma modificação de grandes proporções, que um dia se impõe, com o estouro do rio: o Amanaçu transborda e avança; o morro se desmancha, as árvores caem, os bichos e tudo mais se dissolvem. Buriti Pequeno some do mapa como se nunca tivesse existido.

Os contos de Paulliny Tort não têm diálogos; são escritos em bloquinhos narrativos que produzem um efeito-telescópio: a ação se passa ao mesmo tempo longe e muito perto. Longe por ser indireta, narrada, perto por ser tão nítida. Eficazes em promover inquietação do início ao fim (nunca previsível), não escolhem a via fácil do desenlace de impacto; mesmo assim, o final inconclusivo repercute no leitor. Imagens concisas e poderosas contribuem para trazer o que é narrado para junto dos olhos. O narrador externo à cena conta a história a um “você” presumido em parágrafos longos e claros, que se interrompem quando a sequência narrativa o exige – procedimento ficcional eficaz, que mantém, sem quebras, a atenção.

O leitor sente que conhece intimamente o Brasil que o toma nessa leitura, e que é penoso reconhecer.

© Bel Pedrosa

Heloisa Jahn é editora e tradutora literária. Trabalhou na Brasiliense, na Companhia das Letras e na Cosac Naify. Editou cerca de 80 autores brasileiros, sobretudo ficcionistas e poetas, e traduziu cerca de cem títulos para todas as idades.

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