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O grande combate entre a ordem e a desordem

Por Heloisa Jahn

12 de dezembro de 2021
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Incrível. No dia 14 de dezembro de 2004, há quase exatos dezessete anos, estive no lançamento de Paraísos artificiais, primeiro livro de ficção do poeta Paulo Henriques Britto. O castiçal florentino, publicado em março deste ano, é o segundo. Como numa sinfonia muito lenta, este repete o ritmo daquele: nove contos. Nos dois livros, o primeiro conto batiza o conjunto e o último o encerra com o gesto cabal de ter um número bem superior de páginas. Dois livros a ler.

O que leva um poeta, especialista em síntese, a buscar a linguagem perquisitiva da prosa? O que fica por dizer, o que ele busca, que perguntas se faz? Em “Uma vida”, o narrador reflete: “É sempre assim: as coisas que vamos fazendo sem querer fazê-las, querendo na verdade fazer coisas muito diferentes, talvez justamente o contrário delas, acabam sendo a vida que levamos”. Puro poeta Paulo Henriques Britto – em palavras de prosa.

Nesses contos, os protagonistas são homens atônitos diante de mundos sem lógica. Sujeitos colhidos pelo acaso, deslocados de si: “Era como se eu próprio estivesse representando um papel que se esperava de mim”. A normalidade é atravessada – tomando o termo emprestado ao samba – por um desconcerto que expõe um universo absurdo ao qual o sujeito aplica toda a sua capacidade lógica na tentativa exasperada de estabelecer, senão a ordem, a congruência. Só assim poderá encontrar seu lugar e se reconhecer como indivíduo.

Homens perdidos e realidade cindida estão presentes desde o primeiro conto. Em “O castiçal florentino”, o narrador relembra episódios que foram, diz ele, “uma espécie de despedida da juventude”. Numa noite corriqueira, vai ao cinema. Encontra a sala lotada e desiste. Decide ir para casa ler. A caminho, o acaso lhe oferece um programa insólito – um teatro, uma peça que já vai começar. Ele aceita o convite sem maiores hesitações, para em seguida mergulhar num mundo paralelo que o toma e que oblitera o seu. Seria esse mergulho às cegas num mundo ameaçador – porque regido por normas indevassáveis – o gargalo para a idade adulta? Nesse buraco de Alice, o protagonista se transforma em presa; perde sua independência como indivíduo e sua nitidez como narrador. E se o protagonista é sugado para um lugar onde já não participa de seu destino, o leitor o acompanha nessa lógica “sem chão”, que funciona na chave onírica e é uma espécie de solavanco: a passagem para a “idade adulta”, aquela em que se abandona o sonho. O destino do protagonista será o da sua classe: sua ordem não é a da utopia, mas a do sujeito com salário e família.

Nonsense, humor e ironia estão presentes, aqui, magistralmente, como recursos narrativos. Em “Tema e variações”, por exemplo, o discurso do narrador/protagonista é uma obra-prima de insídia. Sua fala, ao mesmo tempo hesitante e empolada, tem uma divertida marcação de ritmo a goles de água – ingeridos ao longo do discurso. Juntos, fala e copos de água desvendam o fundo falso das palavras do orador – e são muitos copos de água…

Em “Um santo”, escrito em primeira pessoa numa voz levemente infantil, um homem em fuga se oculta em identidades sucessivas, até que não lhe resta mais que… não vou contar, mas não queria deixar de dedicar umas linhas a esse conto delicioso.

Nos contos de O castiçal florentino, a narração é construída como um olhar refratado: as frases “esbarram” numa referência para só depois focalizar o assunto, e isso uma e outra vez, com a fatalidade de um mecanismo de relógio, de modo a chegar gradualmente ao cerne buscado. Como nos sonhos, o encadeamento entre as cenas da trama é regido por pensamentos que não vêm à tona, mas viajam (vagam) no não consciente. Numa realidade móvel e viscosa, porém, como firmar os pés para buscar o nexo? Esse é o tema recorrente nesses contos. O único jeito é tratar de explicar tudo, tratar de esculpir uma verdade a pequenos passos, com palavras. 

Quando um poeta escreve ficção… é porque tem palavras em si buscando canal. 

© Bel Pedrosa

Heloisa Jahn é editora e tradutora literária. Trabalhou na Brasiliense, na Companhia das Letras e na Cosac Naify. Editou cerca de 80 autores brasileiros, sobretudo ficcionistas e poetas, e traduziu cerca de cem títulos para todas as idades.

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