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O familiar, o sagrado e a fotografia como encontro

Por Miguel Del Castillo

8 de maio de 2022
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Há algum tipo de sacralidade no espaço familiar? A palavra que dá título a este livro, utaki, vem da língua de Okinawa, ilha no extremo sul do Japão, e quer dizer “lugar sagrado, lugar de oração”. Para os okinawanos, esses são “geralmente espaços na natureza: um bosque, caverna ou montanha, acessados por poucos”, nos conta o pesquisador Daniel Salum, no texto crítico que encerra o volume. O reduto familiar é esse local sagrado que o fotógrafo brasileiro Ricardo Tokugawa está interessado em investigar, interrogar e compreender em seu primeiro fotolivro.

Há três movimentos interessantes aqui: voltar (depois de já ter saído) para a casa dos pais, a fim de realizar um trabalho artístico; fotografar a casa, com seus cantos e detalhes, e fotografar os pais, a avó e a si mesmo, em performances posadas para a câmera; emular uma nova saída, metafórica, de lá. E, no meio disso, lidar com a doença (provavelmente um câncer) pela qual o pai passa, registrando esse processo duro. Dessa forma, o autor elabora um ensaio sobre legado e memória – a sua, a de sua família e a de seus ancestrais.

Assim como na ficção, o começo de um fotolivro é um dos momentos mais importantes, pois dará o tom de tudo o que segue e fisgará (ou não) o leitor. Em Utaki (2021), ele é muito bem-resolvido e se desdobra com serenidade e firmeza ao introduzir a casa e a família, alternando imagens de ambas para mostrar como estão fundidas. Começamos com um still borrado de um vídeo que exibe uma janela; a seguir, há um cartão aberto com uma fotografia de casamento puxada pela metade, de modo que a borda cobre o rosto dos retratados; uma foto de noivos partindo o bolo, no mesmo casamento, como um indício da gênese desse núcleo familiar; uma imagem recente do muro externo, com uma planta que escala a parede lisa e que parece servir como símbolo de uma linhagem que se ramifica; um bloco de pedra e um armário vazio, não mais utilizado pelo menino (o fotógrafo quando criança), que aparece num porta-retrato dentro dele, e a seguir em outro still de vídeo.

Ainda nessa sequência inicial, vemos a porta da casa, fechada, que remete aos atos de entrar e sair, e logo após há uma cadeira e uma mesa receptivas, num fundo de azulejos decorados – viremos a saber que se trata da cozinha, local das principais reuniões dos familiares, à qual muitas vezes o livro retornará. Os ancestrais são evocados com a imagem de um altar religioso do qual pende a foto daquele que não está mais com eles, o avô, e, após uma vista do jardim, há o primeiro retrato contemporâneo da família, em que o fotógrafo aparece segurando uma moldura de madeira vazia que enquadra o rosto de seu pai e de sua mãe – e aqui se inicia outro momento do livro, com mais fotografias posadas.

Tokugawa seguirá nesse ritmo, construindo com inteligência as relações imagéticas sequenciais. Depois de uma referência direta ao passar do tempo – os pais posando em fundo escuro com um relógio de parede num banco à sua frente (mais tarde veremos esse mesmo objeto em seu lugar, a cozinha, pairando sobre os familiares sentados na copa) –, começam as imagens feitas no hospital: a maca, o mobiliário do quarto de internação, as luvas, o pai de bata. Quando retornamos à casa por um instante, a mãe parece perplexa ao limpar o terraço, a avó espera por alguma coisa na garagem. Mais imagens hospitalares se entremeiam e, ao voltarmos mais uma vez à residência, o pai está sem cabelo e sem sobrancelhas, possivelmente por causa da quimioterapia. A doença paira sobre todas as fotografias nesse ponto, inclusive as feitas na casa, conferindo-lhes uma melancolia ao mesmo tempo doce e pesada.

Mais para o fim, as referências a comidas e refeições em conjunto se proliferam. “Cresci em um ambiente em que, ao mesmo tempo que comíamos pizza com arroz japonês, eu tinha que responder ao meus pais um ‘hai’ quando chamado”, o autor disse, numa entrevista, explicitando seu interesse em trabalhar esse intercâmbio entre tradição e atualidade, entre as origens orientais e o local em que se estabeleceram, e talvez o prato com uma fatia de calabresa e gohan seja uma das melhores expressões disso. Sentimos como se tivéssemos passado o livro todo nessa cozinha afetiva, carregada de história. E então vemos o autor sair de lá e subir as escadas. Encerrando a sequência final, e em referência à primeira imagem, somos confrontados com outra janela, agora aberta, da qual uma corda feita de roupas amarradas pende para fora – para o escuro, para o desconhecido. Este é um livro sobre pertencimento, sobre questionar o lugar de onde viemos e ao mesmo tempo nos permite lançar um olhar amoroso a nossos pais, e sobre como olhamos para o futuro a partir de tudo isso.

***

A premissa de Utaki – de fazer toda a família, inclusive o fotógrafo, performar para a câmera – faz lembrar um fotolivro divertido e terno que leva essa possibilidade ao extremo: Asada-ke (2012), do japonês Masashi Asada. Na primeira metade, o autor, seu irmão e seus pais encenam diversas situações hilariantes – são ora bombeiros prontos para o resgate, ora confeiteiros, cientistas ou jogadores de futebol, sempre devidamente paramentados. Essa parte é lida no sentido com que estamos acostumados, o ocidental, da esquerda para a direita. Na outra metade, que deve ser lida no sentido inverso, isto é, o da tradição oriental, Asada dispõe mais imagens de sua família, porém feitas em situações não encenadas, cotidianas.

Nos dois fotolivros, algo curioso e significativo ocorre: em vez de a fotografia ser o subproduto de reuniões familiares, ela passa a ser o motivo dessa reunião. Ambos os autores, ao propor tais performances, acabam por reunir a família em torno da câmera, da fotografia. E disso parece emergir uma nova dimensão do afeto, uma potência diferente do encontro, que é física, presencial, mas que também adquire uma dimensão profunda, ancestral – e, nesse sentido, talvez sagrada.

© Carol Ribeiro

Miguel Del Castillo é escritor, tradutor, editor e curador, autor de Restinga (2015) e Cancún (2019, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura). Foi editor da Cosac Naify e do site da revista ZUM. É curador da Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles.

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