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O fermento da memória

Por Miguel Del Castillo

30 de janeiro de 2022
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Você é o que você come: há uma verdade simples e dura nesse clichê. As pessoas se relacionam de diferentes maneiras com a comida, e a alimentação é uma questão tanto pessoal – mistura de distúrbios variados, memórias e afetos – quanto pública e cultural. Não sou estudioso do tema nem cozinheiro amador, porém, talvez influenciado pela comilança das festas de fim de ano, escolhi falar de um fotolivro que conjuga alimento e história, indo da memória afetiva e familiar a um grande conflito mundial, do presente ao passado e de volta ao presente.

Em Pasta madre (2021), a fotógrafa italiana radicada no Brasil Alessandra Sposetti revisita sua cidade natal, Macerata, na Itália, que em abril de 1944, durante a Segunda Guerra, foi bombardeada pela Força Aérea Britânica. Uma das bombas matou cerca de quarenta pessoas, “entre elas mulheres e crianças que compravam pão”.

A partir dessa informação, Sposetti constrói sua narrativa visual, que começa como um livro de viagem. Fotografias de um para-brisa molhado surgem junto a fotos da paisagem vista pela janela lateral do carro, em movimento. Outras imagens começam a se intercalar: interiores de uma padaria antiga, um forno de pão aceso, uma criança deitada dentro do carro e, por fim, a massa de pão e seus artífices, os padeiros – pois por todo o livro a autora vai pensar como um acontecimento pontual numa guerra de grandes proporções alterou radicalmente a vida de pessoas comuns, e traçará relações entre esses eventos e o fazer do pão.

A edição de imagens é muito inteligente e refinada; após a sequência inicial, começa-se a trabalhar com dípticos sempre certeiros. O primeiro deles me remete ao fotolivro anterior da autora, Gilda, em que a comida é ainda mais protagonista e as fotografias encarnam repulsa e desejo, num erotismo que evoca Bataille. Vejo isso no close da língua que lambe a mão com restos de algum alimento, lado a lado com a massa de pão sendo despejada dentro de um recipiente enorme. Se a acidez de Gilda não está tão presente em Pasta madre, o pão aqui aparece como um objeto a ser cuidado, talvez por essa aproximação a uma história familiar: num díptico, a foto da massa ainda crua “no colo” do padeiro é vista ao lado do detalhe de uma pintura em que uma madonna segura o filho.

A ausência de sarcasmo não impede que haja certo humor: a massa de uma série de pães redondos junto a um detalhe de seios em alguma pintura; o pão “quadriculado” próximo a arcadas internas do que parece um teatro antigo. Outros alimentos, como uma salada de maionese e doces coloridos, aparecem perto de campos de girassóis e de sinais luminosos de parques de diversão. A mão não pesa na edição do livro, e ainda assim consegue deixar clara sua intenção: a comida diverte, é passível de contemplação, carrega memórias e afetos.

A relação com a história se mostra mais memorialista quando, em alguns intervalos de páginas translúcidas, surgem reproduzidos retratos antigos de mulheres e crianças, que não sabemos se são parentes da autora ou pessoas que morreram no fatídico bombardeio. E também quando, de repente, pegamos de novo a estrada, agora à noite, e chegamos a locais que se assemelham a ruínas, que logo dão lugar a situações em que há outros tipos de desgastes: a palma da mão com bolhas estouradas, pedaços de santos (ou bonecos de brinquedo?), maquinários enferrujados, um pão queimado, uma bomba desativada. Na sequência final, há um ensaio com a massa de pão em fundo preto, que se move numa espécie de dança ou contorcionismo. A câmera aos poucos nos aproxima dela e depois do fogo.

Numa nota, a autora agradece aos pais, que confiaram a ela “seus medos de infância”, uma infância passada durante a guerra. Isso me parece significativo, pois essa é também uma história de retorno: da autora a sua cidade natal e a essas memórias que herdou dos progenitores. O que Sposetti faz aqui é trabalhar com aquilo que Marianne Hirsch chamou de “pós-memória”. Embora a pesquisadora romena tenha inicialmente cunhado o termo para explicar a relação dos filhos de sobreviventes ou vítimas do Holocausto com as memórias de seus pais, o conceito tem sido aplicado a gerações que viveram depois de grandes eventos traumáticos, e aos quais não vivenciaram diretamente, pelo menos não como adultos.

Em seu livro The Generation of Postmemory: Writing and Visual Culture After the Holocaust (2012), Hirsch se pergunta como poderia continuar contando a história de seus pais “sem se apropriar dela”, sem acabar desviando a atenção para si e sem que sua história se visse deslocada pela deles. Será que os “descendentes das vítimas de sobreviventes, dos perpetradores do mal e das testemunhas” de acontecimentos traumáticos em grande escala sentem uma “conexão profunda” com as lembranças da geração anterior, “ao ponto de equipararem essa conexão com uma forma de memória?”. E será que, em circunstâncias extremas, a memória pode ser “transferida” para quem não viveu o acontecimento?

A pós-memória é isso: lembranças transmitidas intergeracionalmente, e que ocupam a vida dos filhos de tal modo que estes precisam elaborá-las de alguma forma. Uma delas é a arte, e é exemplar que Hirsch comece a montar seu argumento a partir do quadrinho Maus, de Art Spiegelman. Afinal, “a literatura, a arte, as autobiografias e os testemunhos da segunda geração respondem à tentativa de representar os efeitos duradouros do que significa conviver intimamente com o lamento, a depressão e a dissociação dos quais padecem os sobreviventes de um enorme trauma histórico”, ela diz, já que os filhos de sobreviventes estão sempre “marcados pela confusão e pela responsabilidade que sentiram desde pequenos, por seu desejo de reparação e pela consciência de que sua própria existência seja, talvez, uma forma de compensação de uma perda terrível”.

Não conheço a história de Alessandra Sposetti e de sua família, que apenas se entrevê aqui, mas sei que, além de fotógrafa, a autora é consultora gastronômica, dá aulas de culinária e, como escreve na sinopse, também faz pão. Ainda assim, e mesmo que ela seja parte já da terceira geração, me parece bonito pensar neste fotolivro como um reconto de uma história familiar – e, no limite, de uma história mundial, por trazer à tona experiências semelhantes de tantas famílias que viveram a guerra. Um reconto levado a cabo ao revisitar essas memórias que se mantêm vivas como a pasta madre, o fermento de um pão caseiro assado de geração em geração.

© Carol Ribeiro

Miguel Del Castillo é escritor, tradutor, editor e curador, autor de Restinga (2015) e Cancún (2019, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura). Foi editor da Cosac Naify e do site da revista ZUM. É curador da Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles.

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