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Abraço de urso

Por Rita Palmeira

28 de novembro de 2021
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Durante pesquisa de campo no nordeste da Rússia, antropóloga francesa sobrevive ao ataque de um urso. A história poderia ser contada assim, mas uma sinopse tão curta seria bem pouco fiel ao que está em jogo neste também curto Escute as feras, de Nastassja Martin (2021).

Para início de conversa, porque, como a narradora se apressa a dizer, não se tratou de um ataque, mas de um encontro entre uma mulher e um urso, em que os dois lutaram e, se ela teve uma parte do maxilar destruído, o urso também não saiu ileso: recebeu um golpe de piqueta.

Em segundo lugar, porque o livro de Martin interessa menos pelo enredo e mais pela forma como trata o episódio e pelo que resulta daí – um livro que, em pouco mais de cem páginas, é a um só tempo um exercício etnográfico, um comentário filosófico e uma novela de aventura.

Nastassja Martin é uma antropóloga de 35 anos com pesquisa sobre os gwich’in do Alasca e os even das montanhas de Kamtchátka, no extremo oriente russo. Defendida um ano antes do episódio com o urso, sua tese de doutorado pela prestigiosa École des Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris, teve como orientador o não menos prestigiado Phillipe Descola. Ou seja, Martin não era uma aventureira, uma outsider que largou tudo para viver isolada nas montanhas. Ao contrário, era uma estabelecida no campo das ciências sociais francesas, o que afasta qualquer sugestão de ler seu livro, belo e erudito ao mesmo tempo, pela chave da autoajuda ou do “desenvolvimento pessoal”.

Nada mais longe disso. É importante sublinhar que a obra de seu mestre tem como ênfase a indistinção entre humano e não humano (animais e plantas). Descola tenta não contrapor natureza e cultura, e Escute as feras transforma essa posição teórica em práxis literária.

O livro começa depois do ataque, quando ela espera pelo resgate. E já nas páginas iniciais o leitor se vê lançado numa narrativa em que não se distinguem ao certo humanos de animais. A fera é ela.

“Quero me atirar sobre ele, rasgar seu ventre, arrancar suas tripas e pregar o maldito telefone em sua mão para obrigá-lo a fazer a selfie mais bonita da sua vida bem no momento de perdê-la, mas não posso”, reage Martin a um homem que tenta fotografá-la. Assim, seus gritos são descritos como “urros”, e ela diz querer que lhe tirem as “amarras”. Após o encontro com o urso, portanto, Martin fala de si como um ser híbrido ou, como resumem os moradores da região, uma “miêdka, alguém que vive entre os dois mundos”. É desse lugar que ela conta o episódio e reflete sobre ele.

É como se a partir de seu encontro com o urso as distinções entre o humano e o animal ficassem turvas: “Ele sem mim, eu sem ele: conseguir sobreviver apesar do que ficou perdido no corpo do outro, conseguir viver com aquilo que nele foi depositado”.

O que se segue são as cirurgias e a dificuldade de lidar com essa reviravolta na vida e esse estar no meio: “Meu corpo se tornou um território onde cirurgiãs ocidentais dialogam com ursos siberianos. Ou melhor, tentam estabelecer um diálogo”.

*

Se nas fábulas os animais são humanizados para nos dar uma lição de moral, aqui estamos muito distantes disso. É a antropóloga quem se animaliza. E dessa experiência não se tira nenhuma lição de moral. Ao contrário – e aqui está, acredito, um dos grandes achados do texto –, o encontro com o urso (e ela ter se tornado uma miêdka) traz um festival de incertezas e sobretudo uma inescapável ausência de respostas. As perguntas de Martin, porém, não se situam na lógica ocidental de “por que isso foi me acontecer?”. A dúvida é: como os dois – ela e o urso – se escolheram?

Ainda que haja, por parte da narradora, uma tentativa de apreender o episódio, a incapacidade de abarcá-lo de forma definitiva indica a insuficiência até do discurso etnográfico para dar conta dessa interação com o não humano. A experiência sensorial é narrada com tamanha intensidade que o embate com o urso ganha contornos eróticos: “Mas aconteceu o entrelaçar dos nossos corpos”; “Um tempo em que eu e o urso, minhas mãos nos seus pelos e seus dentes na minha pele, passamos por uma iniciação mútua; uma negociação a respeito do mundo no qual vamos viver”; “Há tempos vim preparando o terreno que me levaria até a boca do urso, em direção ao seu beijo. Penso: quem sabe, talvez ele também…”.

Isso faz pensar que este é um livro sobre encontros, sobre a radicalidade dos encontros. Por que nos escolhemos e por que nos encontramos em determinado lugar ou momento? O que Martin sugere, numa prosa inquietante e densa, é que não há como objetivar essas escolhas ou explicá-las. Aceitar a indeterminação é também aceitar que nem todos os sentidos estão dados. E não há nada de religioso nisso, ainda que o livro mobilize, sim, a crença como motor: é preciso acreditar nas feras (croire aux fauves é o título original).

Escute as feras é uma espécie de chamado para que nos sensibilizemos a essas novas percepções do que está à volta ou, para ser mais exata, que voltemos a elas. Contudo, não é preciso crer nisso para se deixar tocar pelo livro, basta ser capaz de duvidar. “Eu estou voltando da boca de um urso. O resto? É um mistério.”

© Marcio Costa

Rita Palmeira é editora e crítica literária. Doutora em literatura brasileira pela USP e mestre em Teoria Literária pela Unicamp, é curadora de livros da Megafauna e editora da revista Novos Estudos Cebrap.

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