A ridícula ideia de nunca mais te ver

A ridícula ideia de nunca mais te ver

Rosa Monteiro

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A INDIZÍVEL DOR DO LUTO

“A verdadeira dor é indizível. […] Quando a dor cai sobre você sem paliativos, a primeira coisa que ela lhe arranca é a #palavra.” Em 2009, Rosa Montero ainda aprendia a lidar com a dor da morte de Pablo Lizcano, seu companheiro por 21 anos, quando foi convidada a escrever o prólogo das páginas do diário de Marie Curie (1867-1934), redigidas após a perda de seu marido, o também cientista Pierre Curie (1859-1906). Ao se debruçar sobre as palavras e a biografia da polonesa, Montero sentiu vontade de contar, à sua maneira, a história dessa grande cientista e, a partir dela, refletir sobre assuntos que rondavam sua cabeça. Assim nasceu “A ridícula ideia de nunca mais te ver”.

Marie Curie foi, em circunstâncias nada favoráveis, uma pioneira. Descobriu o rádio e o polônio e, entre muitas conquistas, foi a primeira mulher a vencer o Prêmio Nobel e a única a ganhá-lo em duas categorias: um de física, em 1903, em parceria com Pierre; e outro de química, em 1911, sozinha. Costurando fatos biográficos, trechos do diário de Marie, fotografias de acervo pessoal e imagens históricas às suas próprias memórias da vida ao lado de Lizcano, Montero não apenas recupera a fascinante trajetória da cientista e reflete sobre o lugar da mulher no mundo, como também propõe uma sensível reflexão sobre o luto. Entre outras questões, ela trata da dificuldade de compreender a morte, o vazio, a culpa e da necessidade de reconstrução que se seguem à perda de alguém tão próximo. “Talvez o escritor seja um sujeito mais ou menos louco que é incapaz de sentir a própria dor se não fingir ou construí-la com palavras”, analisa.

Um dos principais nomes da literatura espanhola contemporânea, Rosa Montero nasceu em 1951, em Madri. Jornalista e escritora, publicou “A louca da casa” e “Lágrimas na chuva”, entre dezenas de outros títulos traduzidos para mais de vinte idiomas. Seu novo livro, “Nós, mulheres”, sai no Brasil este mês, pela Todavia.


“E que diabos é ‘sempre’? É um conceito anti-humano.”

“Sempre, nunca, palavras absolutas que não podemos compreender, sendo como somos: pequenas criaturas presas em nosso breve tempo. Você nunca brincou, na infância, de tentar imaginar a eternidade? O infinito que se desenrola à sua frente como uma vertiginosa e interminável fita azul? A primeira coisa que te derruba no luto: a incapacidade de pensar nele e admiti-lo. A ideia simplesmente não entra na sua cabeça. Como é possível que ‘não esteja mais’? Aquela pessoa que ocupava tanto espaço no mundo, onde foi que se meteu? O cérebro não consegue entender que tenha desaparecido para sempre. E que diabos é ‘sempre’? É um conceito anti-humano. Quero dizer, que foge à nossa possibilidade de entendimento. Como assim, não vou vê-lo nunca mais? Nem hoje, nem amanhã, nem depois, nem daqui a um ano? É uma realidade inconcebível que a mente rejeita: não vê-lo nunca mais é uma piada sem graça, uma ideia ridícula.” 

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Trecho de “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, de Rosa Montero, em edição da Todavia; tradução de Mariana Sanchez.


MARIA HOMEM COMENTA “A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS TE VER”

“O luto tem a ver com a impossibilidade de deixar de te ver porque você vai voltar para mim sempre, você vai permanecer simbólica e imaginariamente para sempre. É a impossibilidade de continuação e a impossibilidade de fim.”

Maria Homem fala sobre o processo do luto, a partir de sua leitura de “A ridícula ideia de nunca mais te ver”. Para ela, o título do livro de Rosa Montero “vai na ferida, na essência do que é a perda, do que é a morte”. A psicanalista também destaca o “grande diálogo entre mulheres que nem se conheceram e que estão fazendo essa travessia vida-morte-feminino”, referindo-se a Montero e à cientista Marie Curie (1867-1934), que tem sua trajetória recuperada no livro.

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Maria Homem (@maria.homem) é psicanalista, pesquisadora do Núcleo Diversitas FFLCH-USP e professora da FAAP. Com mestrado pela Universidade de Paris VIII e Collège International de Philosophie, e doutorado pela FFLCH-USP, é autora de “Coisa de menina?”, com Contardo Calligaris, e “No limiar do silêncio e da letra”, entre outros títulos. Seu novo livro, “Lupa da alma: quarentena-revelação”, sai este mês, pela Todavia.


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