São Bernardo

São Bernardo

Graciliano Ramos

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A (IM)PROPRIEDADE DE PAULO HONÓRIO EM SÃO BERNARDO

Romance que projetou Graciliano Ramos, “São Bernardo” (1934) gira em torno das memórias de Paulo Honório, um homem amargurado, de poucas letras e bom faro para negócios, que se torna dono da fazenda onde trabalhou na juventude – a mesma que dá nome ao livro. Paulo Honório narra conflitos próprios à sociedade patriarcal, como a relação bruta com os empregados, agregados e com a mulher instruída com quem se casa, a professora Madalena. Movido por uma ambição sem limites, ele não mede esforços para  fazer valer suas vontades, sem, contudo, conseguir sossego. Suas atribulações – da dificuldade de se expressar à incapacidade de se relacionar – acabam levando-o a profunda solidão.

Um dos maiores escritores brasileiros, Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892. É autor de várias narrativas infernais, como a da família de retirantes de “Vidas secas” (1938). Da dureza da experiência prisional – ficou detido irregularmente, de 1936 a 1937, por ideias consideradas extremistas – fez um longo relato, “Memórias do cárcere”,  publicado postumamente no ano de sua morte, em 1953. É autor ainda de “Caetés” (1933),  “Angústia” (1936) e “Insônia” (1947), entre outros livros.

 

 


Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.

“Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.

Emoções indefiníveis me agitam inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.

Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.”

 Trecho de “São Bernardo” (1934), de Graciliano Ramos.


Adaptação de Leon Hirszman

Gravada no período mais repressivo da Ditadura Militar, em plena vigência do AI-5, a adaptação que Leon Hirszman fez de “São Bernardo” (1972) irritou os censores, que retiveram o filme por sete meses. Para quem conhece a vida e a obra de Graciliano Ramos, assim como a trajetória de Hirszman, não é difícil entender por quê. 

No romance de 1934, Graciliano, que chegou a ser preso político poucos anos depois, apresenta um poderoso libelo contra a desumanização e o poder corrosivo da acumulação de capital. Obcecado pela propriedade de São Bernardo, Paulo Honório destrói a si mesmo e a todos ao seu redor com sua crescente paranoia.

“Sim, senhor! Comunista! Eu construindo e ela [Madalena] desmanchando”, delira Paulo Honório em uma das cenas.

Diretor de um dos curtas de “Cinco vezes favela” (1962) e do longa “A falecida” (1965),  entre outro filmes, Leon Hirszman era um dos principais nomes do Cinema Novo, movimento que propunha um cinema menos alienado e mais politizado, em sintonia com a realidade e as preocupações sociais das classes trabalhadoras. 

Para liberar “São Bernardo”, Hirszman argumentou que seu filme era uma adaptação fiel de um clássico brasileiro e um tributo a Graciliano no octogésimo aniversário do seu nascimento. Funcionou. O longa foi exibido em 1973 e conquistou importantes prêmios, como o de Melhor Ator do Festival de Gramado para Othon Bastos e o Troféu APCA nas categorias Melhor Diretor (Leon Hirszman), Melhor Roteiro e Melhor Atriz (Isabel Ribeiro).

“São Bernardo” não foi o único livro de Graciliano a ganhar as telas. Entre outras adaptações de seus romances, vale destacar “Vidas secas” (1963) e “Memórias do cárcere” (1984), ambas de Nelson Pereira dos Santos.


MARILENE FELINTO COMENTA “SÃO BERNARDO”

“Esse romance, para mim, é muito tocante porque meus pais são dessa mesma região do sertão do Nordeste, dessa mesma época dos anos 1930 e padeceram dessa mesma orfandade desse personagem.”

A epígrafe do primeiro romance da pernambucana Marilene Felinto, “As mulheres de Tijucopapo” (1982), é uma citação de São Bernardo: “A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”. Em depoimento à Megafauna, ela conta que a frase que lembra a origem de sua família é, para ela, também a que melhor resume Paulo Honório, protagonista do romance de Graciliano Ramos. Marilene lembra que Paulo Honório é resultado de um contexto sócio-histórico marcado por extrema pobreza, coronelismo e exploração da força de trabalho dos que estão mais embaixo na escala social. Órfão, ele cria um plano de sobrevivência, um projeto de vingança, que envolve apropriar-se da fazenda São Bernardo, onde trabalhou na juventude. Faz lembrar, ela diz,Edmond Dantès, personagem de “O conde de Monte Cristo” (1844), de Alexandre Dumas. “São dois injustiçados pela vida que dão a volta por cima e voltam para se vingar de seus algozes, com a diferença que Dantès volta como um lorde rico e culto, e Paulo Honório se transforma em um latifundiário cruel, de comportamento muito semelhante ao mandonismo coronelista das oligarquias políticas regionais das quais ele foi vítima.”

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Marilene Felinto é escritora e ensaísta. Autora de “As mulheres de Tijucopapo” (1982), ganhador do prêmio Jabuti em 1982, e “Obsceno abandono: amor e perda” (2002), entre outros livros, assina atualmente uma coluna na “Folha de S.Paulo”.


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