Descrição
O que acontece quando o corpo de uma mulher traduz os dilemas de uma nação? Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano, de Oksana Zabuzhko, narra a complexa e intensa relação entre dois amantes intelectuais, na qual entrelaça desejo, abuso, identidade e traumas coletivos do século XX. Considerado o maior fenômeno literário da Ucrânia moderna, este romance foi aclamado por revolucionar a literatura do país, tornando-se símbolo de liberdade individual e coletiva. Com uma escrita inovadora e atraente, a escritora ucraniana constrói uma obra marcante sobre opressão, resistência e feminismo, apontando para os limites e as possibilidades de reconstrução de uma identidade nacional ferida.
Publicado originalmente em 1996, o romance acompanha o relacionamento conturbado entre uma poeta, Oksana, e um ambicioso escultor, Mykola K, que vivem entre os Estados Unidos e a recém-independente Ucrânia. Em meio à dor do rompimento e à análise do comportamento abusivo do parceiro, a narradora amplia seu olhar para padrões opressivos sociais, culturais e sexuais herdados de sua história nacional, revelando as correntes que a moldaram enquanto mulher ucraniana. O livro se desdobra numa análise pungente das estruturas do desejo, do abuso e da alienação, revelando como a intimidade é inseparável dos traumas nacionais, do legado colonial russo e das marcas do patriarcado, tanto privadas quanto coletivas.
Na época do lançamento, há três décadas, a publicação causou enorme repercussão na Ucrânia, com debates acalorados sobre moralidade e literatura, especialmente devido ao modo como a autora examina, a partir da linguagem corporal da mulher, traumas históricos do país e o papel da mulher sob opressão patriarcal e totalitária.
Logo após a publicação, a autora recebeu inúmeras cartas de leitoras, muitas delas afirmando terem sido salvas pelo livro ou se reconhecido de maneira visceral na obra. O romance se consolidou como símbolo de emancipação para a primeira geração de mulheres da Ucrânia independente, sendo chamado até de “Bíblia do feminismo ucraniano”.
Traduzida para mais de vinte idiomas, e até agora inédita no Brasil, a obra-prima de Oksana permaneceu por mais de dez anos entre os livros mais vendidos do país e mantém-se, até hoje, como um grande clássico cult, integrante da lista das cem maiores obras da literatura ucraniana, segundo a PEN Ucrânia. Em 2006, o livro foi considerado a obra mais influente nos primeiros quinze anos pós-independência do país.
A repercussão da obra transcende fronteiras e disciplinas: tema de estudos pós-coloniais e feministas, o livro inspirou pesquisas comparativas com autoras como Toni Morrison, Jamaica Kincaid, Assia Djebar e Angela Carter. Crítica e público destacam sua inovação estrutural pós-moderna; o texto alterna vozes, fundindo primeira, segunda e terceira pessoas, num fluxo de consciência que desafia e seduz o leitor.
Recentemente, a obra ganhou novo fôlego e interesse internacional, a partir do início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, servindo como retrato literário da luta pelo reconhecimento e pela autonomia do país e de suas mulheres.
Oksana Zabuzhko nasceu em 1960, cursou filosofia em Kyiv e viveu nos Estados Unidos, sendo bolsista Fulbright e escritora residente em instituições como Penn State, Harvard e Pittsburgh. Sua obra figura entre as cem mais importantes da literatura ucraniana e rendeu-lhe prêmios como o Global Commitment Foundation Poetry Prize, bolsa MacArthur e a condecoração pela Legião de Honra da França. Em 2023, a escritora foi eleita pela BBC como uma das 100 mulheres mais importantes do mundo.
Tendo a identidade nacional ucraniana e o gênero como temas centrais de sua obra, a autora – até agora inédita no Brasil – tem mais de vinte livros (poesia, ficção e não ficção) traduzidos em mais de vinte idiomas. Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano permanece sua obra-prima, um convite para revisitar a história pela ótica do corpo, da língua e da resistência das mulheres.




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